Em um contexto marcado pela crescente pressão sobre os sistemas municipais de gestão de resíduos, Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, pontua que as cooperativas de reciclagem ocupam uma posição que vai muito além da triagem de materiais. São, ao mesmo tempo, infraestrutura ambiental, instrumento de inclusão produtiva e agente de circulação econômica nos territórios onde atuam. Poucos modelos de política pública conseguem reunir tantos retornos simultâneos com o mesmo nível de investimento público e social.
Neste artigo, apresentamos os principais aspectos que tornam as cooperativas de reciclagem um componente estratégico para cidades que buscam avançar na gestão de resíduos sólidos urbanos.
O que diferencia o trabalho cooperado do catador informal?
A informalidade ainda é a realidade de uma parcela significativa dos catadores de materiais recicláveis no Brasil. Trabalhando de forma individual, esses profissionais percorrem ruas e galpões sem acesso a equipamentos adequados, sem proteção social e com baixíssimo poder de negociação na comercialização do material coletado.
A organização em cooperativas transforma essa equação de forma estrutural: o trabalho coletivo permite o compartilhamento de custos operacionais, o acesso a galpões de triagem, a aquisição de prensas e esteiras e a formação de lotes maiores de material para venda direta à indústria recicladora, eliminando intermediários que historicamente ficam com a maior parte do valor gerado.
Segundo Marcello José Abbud, o diferencial econômico do modelo cooperado se manifesta especialmente na etapa de comercialização. Isso porque cooperativas que consolidam a produção de múltiplos cooperados conseguem negociar com compradores de maior porte, retendo uma parcela maior do valor gerado pela reciclagem. A estabilidade de receita resultante é um dos principais fatores que contribuem para a redução da rotatividade e para o fortalecimento do vínculo dos catadores com o trabalho formalizado, criando condições para o desenvolvimento profissional contínuo dos membros.

O impacto territorial das cooperativas nos bairros periféricos
A presença de uma cooperativa de reciclagem estruturada em um bairro periférico gera efeitos econômicos que se irradiam muito além dos cooperados diretos. De fato, a movimentação financeira associada à operação cria demanda por serviços locais de transporte, manutenção de equipamentos e insumos operacionais. Em regiões onde o acesso ao emprego formal é historicamente restrito, essa circulação econômica representa uma injeção de recursos relevantes que dificilmente seria gerada por outras vias de política pública convencional.
Na visão de Marcello José Abbud, estudos realizados em diferentes municípios brasileiros confirmam que cada tonelada de material reciclado processado por cooperativas gera mais empregos e mais renda local do que a mesma tonelada destinada a aterros ou processada por grandes empresas privadas do setor. Esse diferencial concreto justifica o apoio público às cooperativas não apenas como política ambiental, mas como estratégia deliberada de desenvolvimento econômico territorial, especialmente em municípios que concentram populações vulneráveis em áreas urbanas periféricas com baixa cobertura de serviços públicos estruturados.
Os obstáculos estruturais que ainda limitam o setor
Apesar do potencial amplamente reconhecido por gestores, pesquisadores e formuladores de políticas, as cooperativas de reciclagem brasileiras enfrentam obstáculos que limitam sua capacidade de operar com eficiência e escala suficientes. Entre os desafios que afetam a maioria das organizações do setor de forma simultânea e recorrente, estão a dependência de galpões cedidos pelo poder público em condições precárias, a ausência de capital de giro para estocar material até atingir volumes comercialmente atrativos, a volatilidade dos preços dos materiais recicláveis no mercado e a dificuldade de acesso a crédito formal.
Conforme expõe Marcello José Abbud, a inclusão formal das cooperativas nos sistemas municipais de coleta seletiva, com contratos estáveis e remuneração adequada pelos serviços efetivamente prestados à municipalidade, é a medida mais estruturante para garantir previsibilidade de receita e escala de operação ao longo do tempo. Além disso, programas de crédito específicos para aquisição de equipamentos e a criação de redes de comercialização que agreguem a produção de múltiplas cooperativas para negociação em maior escala são complementos que ampliam o alcance e a sustentabilidade econômica do modelo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez