Criador de ‘O Caso Evandro’: ‘Nosso sistema penal precisa ser revisado’ 

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Em 1992, a pequena Guaratuba, no litoral do Paraná, ganhou os noticiários brasileiros por um motivo trágico: Evandro Caetano, um garoto de 7 anos, foi encontrado morto em um matagal da cidade, com o corpo completamente desfigurado. A investigação chegou a um grupo de sete pessoas, que confessou ter assassinado o garoto durante um ritual satânico para abrir os caminhos do então prefeito da cidade. O processo se embrenhou em um estranho contexto de interesses políticos e com alegações de que os acusados que confessaram o crime o fizeram sob tortura — mesmo assim, quatro deles foram condenados, enquanto o crime prescreveu para os demais, entre muitas idas e vindas.

Décadas depois, a história voltou às manchetes pelas mãos do paranaense Ivan Mizanzuk, criador do podcast O Caso Evandro, na quarta temporada do Projeto Humanos, que disseca o crime famoso. De lá para cá, o programa de 36 episódios acumula mais de 9 milhões de downloads nas plataformas digitais, foi transformado em livro pela HarperCollins e ganhou uma série documental no Globoplay, que ganha seu sétimo e último episódio na quinta-feira, 3. O sucesso é uma combinação de uma narrativa envolvente com uma investigação minuciosa, que revelou áudios inéditos até então omitidos dos autos.

Em entrevista a VEJA, Ivan afirma que o conteúdo indica que os acusados falavam a verdade em relação às torturas, mas o Ministério Público do Paraná discorda. “O conteúdo em áudio citado carece de prova de autenticidade e de contemporaneidade. Além disso, destaca-se que a desconstituição de uma condenação criminal somente ocorre no caso de surgir nova prova cabal de exclusão de responsabilidade do condenado, o que não demonstra ser o caso”, disse o órgão em nota. O material, disponível no episódio 25 do podcast, apresenta trechos de gritarias e pedidos de socorro, e deve ser usado pelo advogado de defesa para um pedido de revisão criminal, que ainda não está em andamento.

O menino Evandro (à esq.) e o drama das vítimas infantis no programa: revelações e denúncia de preconceito religioso –Reprodução/Reprodução

De onde veio essa sua curiosidade sobre o caso Evandro? Eu queria fazer um podcast de um caso criminal, porque é interessante no sentido narrativo, mas precisava escolher qual crime abordar. Há muitos casos notórios no Brasil, a maioria no eixo Rio-São Paulo é bem conhecida. Todo mundo que tenha entre 35 e 40 anos aqui no Paraná viveu o pânico das crianças desaparecidas e discussões sobre magia negra. Eu vivi esse medo, e O Caso Evandro me assombrou durante a infância. Então, trabalhar na história foi uma forma de exorcizar alguns demônios pessoais. Também foi uma oportunidade de levantar uma reflexão sobre o nosso sistema de segurança pública. Tem uma série de fenômenos em torno desse caso que são bem interessantes para refletir sobre o Brasil.

Você praticamente reinvestigou a investigação, apontando uma série de inconsistências e informações descartadas na época. Tinha ideia de que isso poderia acontecer e da proporção que tomaria? Não exatamente. Eu comecei as pesquisas na internet e conversando com uma pessoa ou outra, mas haviam muitas peças soltas. Advogados reclamavam de problemas na investigação, da maneira como ela foi conduzida e de como as pessoas foram tratadas, mas ninguém sabia a fundo sobre isso. Eram muitos detalhes ignorados dos dois lados, que eu só percebi quando tive acesso aos autos do processo, em 2017. Antes disso, eu via muitas declarações e pouca demonstração do que estava sendo argumentado. A grande maioria das inconsistências que eu aponto já haviam sido levantadas por advogados. A minha grande contribuição aconteceu no momento em que eu descobri coisas novas. A partir daí, o podcast ganhou outra dimensão, e agora a gente vai ver o que vai acontecer, porque a história ainda está em aberto.

No último episódio do podcast, você diz que tem plena convicção de que os sete acusados não mataram Evandro. Em que momento isso ficou tão claro? Eu estive aberto a todas as possibilidades durante toda a produção dos primeiros 24 episódios. A chave virou quando eu tive acesso às fitas inéditas. Eu ouvi o Osvaldo sem ar pedindo para parar, depois o Vicente também ofegante, e eles passavam versões completamente diferentes da confissão final. Eu nunca falei isso para não dar carteirada, mas tenho um doutorado em análise do discurso e você vê ali uma narrativa sendo construída. Por que a polícia escondeu isso? Eu desabei quando ouvi a Beatriz Abagge falando ‘isso não é verdade, eu tô inventando isso’. E alguém ao fundo diz: ‘O que você tá falando? Você não tá querendo falar, a gente vai ter que continuar a nossa sessão’. Tem toda uma discussão sobre o que ele fala ali, se é continuar na nossa sessão, te assassinar na nossa sessão, te trucidar na nossa sessão, mas é uma possibilidade pior do que a outra. Nesse momento eu parei a fita e disse para a minha esposa: ‘eles foram torturados, eu tenho certeza agora’. Já haviam vários indícios, mas é muito diferente quando tem uma evidência na sua frete. 

Na série, você diz que disponibilizará o material na íntegra para qualquer órgão de Justiça que queira seguir com as investigações. Alguma autoridade já te procurou? Parte dos acusados sim. Vai ser feito um processo de revisão criminal que está sendo montado pelo Antônio Figueiredo Basto, por parte da família Abagge, mas eu não sei se outros vão entrar na ação. Isso está sendo preparado desde o ano passado, eles passaram esses últimos meses pegando o processo, relendo tudo, e vieram falar comigo, mas acho que ainda não entraram oficialmente. O que me deixa muito triste é que ninguém do Ministério Público me procurou. Os órgãos do Estado, que deveriam fazer isso, aparentemente não se interessaram, e essa é mais uma camada dos problemas que o sistema penal brasileiro possui e que precisa ser revisado. 

Recentemente, pessoas defendendo tortura se tornaram parte do cenário político nacional. Como essa questão foi recebida pelos ouvintes? A grande maioria das pessoas que ouviram as fitas ficaram convencidas de que eles foram torturados. Mas a noção que as pessoas têm de tortura é tão mal informada que uma minoria disse que eles terem sido torturados não significa que são inocentes. A cultura popular usa muito a tortura em filmes e séries como um instrumento eficaz de investigação, mas as pessoas falam qualquer coisa para sair dessa situação. Eu fico triste que essa minoria não fique indignada pelos motivos certos. Como o Estado permitiu que a polícia omitisse essas fitas? Como permitiram que acontecesse essa investigação bizarra? Mais assustador do que isso foi notar que os policiais realmente acreditavam que estavam fazendo um bom trabalho. Torturar pessoas achando que isso é um método que leva a bons resultados é uma falácia. 

E o que você acha que realmente aconteceu com o Evandro? Minha teoria é que havia um assassino em série em Guaratuba. Existem alguns indícios sobre isso, pode ou não ser uma das pessoas que eram suspeitas do grupo Tigre antes, mas ele pode ter matado mais crianças e a gente nunca vai saber. Se eu estiver certo, ele tinha um método tão bom que conseguia fazer os corpos desaparecerem e só errou com o Evandro, que não deu tempo de enterrar. No final, vidas inocentes foram destruídas e um assassino pode ter ficado livre. 

Além da sua investigação, há outros podcasts sobre casos criminais que discutem problemas sociais, como Making a Murderer e Praia dos Ossos. Qual é o papel desse tipo de produção? Eu sempre defendi que a cultura pop pode ser um espaço de reflexão sobre problemas sociais. O que eu vejo com casos criminais em grandes formatos de mídia é que é muito fácil tomar lados e transformar isso num grande espetáculo de justiça ou injustiça. Para mim, o mais interessante é o embate entre versões. Especialmente em um país como o Brasil, em que temos um jornalismo policial acusatório, com um cara indignado olhando para a câmera e chamando todo mundo de vagabundo, enquanto parabeniza policiais que cometeram absurdos. Precisamos construir uma cultura mais crítica e produtos como Praia dos Ossos, O Caso Evandro, e muitos outros que vão surgir podem nos ajudar a pensar nisso de uma maneira séria. 

Como a família do Evandro recebeu o podcast? O contato que eu tive foi pelo Diógenes, que eu entrevistei para o podcast no começo e depois ele não se sentiu confortável com algumas das minhas abordagens. Os pais do Evandro não falam com a imprensa há muitos anos. Eu pedi para o Diógenes avisá-los de que gostaria de falar com eles, mas não tive retorno, tentei ser o mais respeitoso possível. Não consigo imaginar a dor que eles sentem até hoje e queria muito poder dar um abraço neles um dia, mas acho que não vai ser possível. É até difícil comemorar o sucesso porque é muito contraditório. Eu sei que fiz um bom trabalho e que tem pessoas eternamente gratas por eu ter trazido isso à tona, mas eu sinto por eles porque é uma cicatriz muito grande que está toda hora sendo reaberta, mas precisamos falar sobre isso.

Um elemento importante da história é a paranoia satânica que rondava os Estados Unidos e o Brasil, fruto de uma sociedade conservadora. Nos últimos anos, o fundamentalismo religioso ganhou novas dimensões. Se o crime acontecesse hoje, a repercussão seria diferente? Eu quero acreditar que sim, mas ainda vemos elementos do dito “pânico satânico”. Nos Estados Unidos, durante as eleições de Donald Trump, surgiu o caso do Pizza Gate. Vazaram alguns e-mails de Hillary Clinton e começaram a dizer que tinham mensagens secretas em que pizza era um codinome para falar sobre crianças presas em um calabouço em uma pizzaria de Washington, onde eram abusadas e sacrificadas. Um cara armado invadiu a pizzaria querendo ver o tal calabouço, mas não existia calabouço nenhum.

O mesmo vale para o Brasil? Sim, também. Em 2016, apareceram três cadáveres de crianças em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. A investigação não deu em nada, mas o delegado mandou prender algumas pessoas que seriam satanistas como sendo os assassinos. Um jornalista perguntou como ele concluiu isso e ele respondeu que um profeta da igreja teve uma revelação. Teve uma matéria também dizendo que crianças haviam sido resgatadas de um ritual no interior do Pará, e que seriam sacrificadas para acabar com a Covid-19. A gente precisa ser mais cético em relação a isso, porque não existem seitas satânicas a cada esquina e é muito mais provável que essas crianças estivessem sofrendo maus tratos de familiares do que qualquer outra coisa. 

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