Quem era o homem forte da pasta da Saúde na era Pazuello

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O novo Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirma ter recebido carta branca para montar sua equipe na pasta. Se a promessa for cumprida, ele terá um enorme trabalho pela frente. Uma das principais críticas atribuídas à gestão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi na montagem de sua equipe. Em vez de escolher subordinados com expertise na área da saúde, assunto que ele assumidamente não dominava, preferiu nomear uma tropa de mais de mais de 20 militares para cargos chave na pasta. O mais proeminente deles, no entanto, não tinha currículo militar e, sim, uma vasta experiência no meio político e empresarial – Airton Antônio Soligo, mais conhecido como Airton Cascavel.

Na opinião da maioria dos gestores estaduais e municipais, Cascavel era o “ministro de fato” da pasta. Da estrita confiança de Pazuello, era Cascavel quem “desenrolava” a maior parte das pendências burocráticas e demandas logísticas com os estados e municípios, como entrega de respiradores, lotes de vacina, equipamentos para leitos de UTI, negociações com laboratórios etc. “Ele era o sustentáculo da pasta, era o que resolvia tudo. Quando a gente tinha algum problema, o Pazuello mandava falar com ele”, descreveu um secretário estadual. As conversas, pelo jeito, não adiantavam muito. Como se sabe, o Ministério da Saúde da era Pazuello sempre esteve muito longe do padrão mínimo de eficiência.

Apesar do saldo negativo, Cascavel é tido como responsável por pelo menos um acerto: o de resolver em dezembro de 2020 o imbróglio entre o ministério da Saúde e o Instituto Butantan na compra e distribuição da CoronaVac, a vacina mais aplicada hoje no Brasil. Cascavel veio pessoalmente a São Paulo para destravar a negociação com o presidente do Instituto, Dimas Covas, e colocar panos quentes na briga entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador  João Doria.

Nesta semana em que o ministério se dividiu entre dois “ministros” (Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga), coube a Cascavel dar a melhor notícia da pasta. “Hoje é um dia histórico para o Brasil e os brasileiros. A Fiocruz entrega o seu primeiro lote de 1 milhão de doses, produzidas em território nacional. Essa foi uma aposta do governo há um ano atrás. A partir de agora, serão produzidas aqui no Rio de Janeiro 6 milhões de doses semanais – ou seja, 24 milhões de brasileiros a cada mês serão vacinados com a nossa vacina”, anunciou ele, em vídeo divulgado no perfil do presidente Jair Bolsonaro nesta sexta-feira, dia 19.

Antes de se aventurar na Esplanada, Cascavel era descrito por colunas sociais de Roraima como um dos empreendedores mais promissores da região Norte – ele nasceu em Capenama, no interior do Paraná, mas se estabeleceu na região da Amazônia como assessor da diretoria da empresa de ônibus União Cascavel (daí o apelo). A partir daí, ascendeu na carreira como empresário e político simultaneamente – foi  proprietário de fazendas, empresa de polpa de frutas e alimentação, franquias em shoppings em Boa Vista e Manaus e dois moteis. No campo político, elegeu-se prefeito de Mucajaí (RR) aos 24 anos, depois deputado estadual, chegando ao posto de presidente da Assembleia de Legislativa de Roraima, vice-governador e, por último, deputado federal.

A trajetória de Cascavel é marcada por algumas controvérsias. Em 1989, quando ainda era um jovem prefeito, ele chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal de Roraima por subornar um funcionário público com 5.000 cruzados para liberar uma caminhonete, que era usada na campanha de vacinação de febre aftosa no interior de Roraima. O processo nunca foi adiante na Justiça, ele não chegou nem a virar réu e no fim acabou prescrito. Em 2018, Cascavel tentou (sem sucesso) se eleger deputado federal. Na ocasião, declarou patrimônio de 3 milhões de reais, sendo que 1 milhão ele guardava em dinheiro vivo em casa. Na campanha, ele participou ativamente da eleição do atual governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), aliado de Bolsonaro.

Em 2019, o governador tentou nomeá-lo para a presidência da Fundação Estadual do Meio Ambiente, mas o seu nome foi rejeitado pela Assembleia Legislativa. Ele teve mais êxito ajudando o general Eduardo Pazuello na Operação Acolhida, que levava imigrantes venezuelanos “presos” em Pacaraima (RR) para outros estados. E desse estreita relação com o militar, Pazuello acabou alçando ao posto de assessor especial do ministério da Saúde durante a maior crise sanitária da história do país.

Na estratégia arquitetada pelo Planalto para não deixar Pazuello sair queimado do ministério, foi combinado que parte da equipe do general seria mantida num primeiro momento. No discurso oficial, a administração de Queiroga será de “continuidade” e não de rompimento. Cascavel, no entanto, já avisou a pessoas próximas que deve deixar a pasta por se ver muito associado a Pazuello.

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