Sobretaxa de 12,5% por acusação de trabalho forçado entra em vigor nesta sexta-feira e atinge 54 países, incluindo o Brasil.
O comércio exterior brasileiro enfrenta mais um capítulo de tensão com os Estados Unidos. Nesta quinta-feira (23), o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) anunciou uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, com entrada em vigor prevista para esta sexta-feira (24). A medida se soma à tarifa de 25% já aplicada desde o dia 22 deste mês, elevando a tributação acumulada para até 37,5% sobre parte das exportações do Brasil ao mercado norte-americano. Diante de mais uma escalada tarifária, exportadores e analistas se perguntam: quais produtos serão realmente afetados, e o que motivou essa nova rodada de sanções comerciais?
Por que os EUA aplicaram a nova sobretaxa
Segundo o USTR, a decisão se baseia em uma investigação conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que apura práticas comerciais consideradas desleais. O órgão americano acusa o Brasil, junto com outros 53 países, de não adotar mecanismos suficientemente eficazes para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado em seus mercados internos. Entre os setores identificados pelo USTR como mais expostos a esse tipo de prática estão alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que a ausência de barreiras adequadas prejudica empresas e trabalhadores norte-americanos, já que produtos fabricados a custos artificialmente reduzidos acabam competindo de forma desigual com a produção doméstica dos EUA. Apesar do Brasil manter mecanismos como a Lista Suja do Trabalho Escravo e participar de acordos internacionais de combate a esse tipo de exploração, a avaliação americana é de que essas ferramentas não são consideradas suficientes. Além do Brasil, países como China, Argentina, Austrália, Japão, Índia, Reino Unido e África do Sul também foram incluídos na lista de nações taxadas, enquanto parceiros como Canadá, México e a União Europeia ficaram de fora da nova rodada de sobretaxas.
Quais produtos ficam de fora do tarifaço
Apesar do impacto da nova tarifa, o governo americano optou por isentar uma lista extensa de itens considerados estratégicos para a própria economia dos Estados Unidos. Segundo o Movimento Econômico, 471 produtos brasileiros estão fora da nova sobretaxa, entre eles café, petróleo, gás natural, fertilizantes e derivados agrícolas considerados essenciais para as cadeias produtivas americanas. Essa lista de isenções segue, em parte, o mesmo padrão adotado em rodadas tarifárias anteriores, quando itens como suco de laranja, aeronaves civis, ferro-gusa e celulose também escaparam de tarifações mais amplas.
A manutenção dessas isenções não é uma coincidência. Levantamentos anteriores mostram que os Estados Unidos dependem fortemente de fornecedores brasileiros em diversos segmentos, como o suco de laranja, que representa cerca de 73% do consumo americano do produto, e o açaí, item para o qual praticamente não existe fornecedor alternativo no mundo. Essa dependência ajuda a explicar por que, mesmo em meio a sucessivas rodadas de tarifação, certos produtos brasileiros seguem protegidos, enquanto outros setores, com maior capacidade de substituição por fornecedores de países como Colômbia, Vietnã, Austrália ou Nova Zelândia, ficam mais expostos às novas taxas.
O que esperar para o comércio exterior brasileiro
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o governo brasileiro está avaliando o impacto da nova medida e busca alternativas de negociação junto ao governo americano. Analistas de mercado citados por veículos econômicos apontam que a expectativa é de que os Estados Unidos só devem flexibilizar a posição após as eleições brasileiras, previstas para outubro, o que sugere que o cenário de instabilidade tarifária deve se manter por mais alguns meses.
Apesar da pressão adicional, o histórico recente do comércio exterior brasileiro mostra capacidade de adaptação. Mesmo durante períodos de tarifas elevadas em 2025, as exportações totais do país bateram recorde histórico, impulsionadas pela expansão de vendas para a China e outros parceiros comerciais. Esse movimento de diversificação de mercados, já observado em estados como o Paraná, que tem ampliado vendas para a Índia, pode voltar a ser a principal estratégia das empresas brasileiras para reduzir a dependência do mercado americano diante de um cenário tarifário que segue instável.
Fontes consultadas: Agência Brasil, Movimento Econômico.